quinta-feira, 23 de junho de 2016

Escritório ligado a Paulo Bernardo recebeu R$ 7 milhões, diz MP

Agentes da Polícia Federal realizam buscas na sede do PT Nacional em São Paulo. A ação faz parte da Operação Custo Brasil, que integra a Lava Jato, investigando o pagamento de propina entre os anos de 2010 e 2015 a pessoas ligadas ao MPOG (Foto: Suamy Beydoun/Futura Press/Estadão Conteúdo)
Agentes da Polícia Federal realizam buscas na sede do PT Nacional em São Paulo. A ação faz parte da Operação Custo Brasil, que integra a Lava Jato, investigando o pagamento de propina entre os anos de 2010 e 2015 a pessoas ligadas ao MPOG
Ex-ministro do Planejamento do governo Lula foi preso nesta quinta-feira.
Fraude tirava percentual de crédito consignado para pagar políticos, diz PF. Escritório de advocacia ligado ao ex-ministro do Planejamento do governo Lula e das Comunicações no primeiro governo Dilma, Paulo Bernardo, recebeu cerca de R$ 7 milhões entre 2010 e 2015 por meio de esquema que desviou cerca de R$ 100 milhões da pasta em fraude no crédito consignado a funcionários públicos, segundo a Polícia Federal.
Ele foi preso nesta quinta-feira (23) na Operação Custo Brasil, desdobramento da 18ª fase da Operação Lava Jato, em Brasília.

O valor que foi recebido pelo escritório ligado a Bernardo foi apurado com base em notas fiscais do Grupo Consist, contratado pelo esquema para operacionalizar o crédito consignado a funcionários públicos da União. A Consist é apontada pelo juiz Sérgio Moro, à frente da Operação Lava Jato, que investiga o esquema na Petrobras, por ser responsável pelo pagamento de propina a partidos e políticos. Do 70% do total do esquema - cerca de R$ 100 milhões no período de 2010 a 2015, Paulo Bernardo teve direito a quantias que variavam entre 9,5% e 2%, dependendo de sua função no governo e na manutenção da fraude. O restante do total do esquema - 30% - ficava como pagamento para a Consist pelo serviço.

A quantia percentual de Bernardo era direcionada por meio deescritórios de advocacias que prestaram serviços de forma "laranja", segundo Andrey Borges de Mendonça, procurador da República que investiga o caso. Os escritórios ficavam em média com 20% do valor total. "Os R$ 7 milhões foi o que se apurou em notas da Consist para o escritório de advocacia. O que apuramos foi que 80% do total repassado ao escritório [cerca de R$ 5,6 milhões] ia para Paulo Bernardo", disse Mendonça.

Além de Bernardo, outros atores tinham direito a porcentagens dentro do pagamento da propina, entre eles o Alexandre Romano, que ficava com 20% do total dos 70%. Da parcela de Romano, 80% era destinado ao Partido dos Trabalhadores (PT). O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto é quem decidia as porcentagens que cada um deveria receber, informou o procurador da República Andrey Borges de Mendonça. Conforme o delegado da PF Rodrigo de Campos Costa, o ex-ministro Paulo Bernardo está sendo acusado de integrar uma organização criminosa e recebia uma porcentagem na atuação desta empresa, para que o acordo ilegal fosse mantido por meio de um escritório de advocacia, que prestava serviços fictícios.


O esquema
Segundo o superintendente da Receita Federal em São Paulo, Fábio Ejchel, de 2010 a 2015, foi cobrada uma parcela mensal dos servidores da União que fazem empréstimos consignados que era direcionada para o pagamento de políticos.

"Estamos falando de centenas de milhares de pagamentos do crédito consignado. E existia [a cobrança] de um pouco mais de R$ 1 para o serviço de gerenciamento e controle, em um custo que era só R$ 0,30. Estes valores eram desviados e aumentavam o custo Brasil", afirmou. "Dezenas de milhares de funcionários públicos foram lesados", salientou.

Até 2009, o sistema de informática apresentava uma falha sobre o limite que o servidor poderia obter sobre o salário - cujo máximo é 30% do salário. Naquele ano, houve a pressão para que houvesse a contratação de uma empresa especializada na área.

"É neste momento, na contratação desta empresa, é que houve a fraude", afirma o delegado da Polícia Federal Rodrigo de Campos Costa. "Contratou se empresa que prestava valor muito maior do que deveria cobrar por aquele serviço", salientou o superintendente da Receita.

Para que a fraude fosse mantida, funcionários do Ministério do Planejamento também recebiam no esquema. Foram identificados os pagamentos a dois empregados do ex-ministro Paulo Bernardo durante a transferência de recursos. Os nomes não foram divulgados. Secretários adjuntos do ministério e um servidor de uma diretoria, que também foi preso, estavam cientes da fraude, segundo o delegado.

"Identificamos a participação de funcionários do Ministério do Planejamento e Gestão do primeiro, segundo e terceiro escalão", explicou o delegado da PF.

"A corrupção é irmã gêmea da sonegação. A atuação conjunta dos órgãos é fundamental", salientou o superintendente da PF, sobre a operação conjunta realizada nesta quinta.

Andrey Borges de Mendonça, procurador da República, informou que há evidências que o ex-ministro da Previdência Carlos Gabas recebeu valores no início e no término do esquema, que perdurou até a Operação Pixuleco, realizada pela PF em agosto de 2015.
Inicialmente, a PF informou que Gabas teria sido alvo de condução coercitiva, que é quando a pessoa é levada a depor. No entanto, o juiz que autorizou o mandado disse que Gabas deveria ser informado pelos policiais que teria o direito de ficar em silêncio e, nesse caso, não seria obrigado a ir para a delegacia prestar depoimento. Como Gabas disse que não falaria com as autoridades, pôde ficar em casa.

"As evidências apontam que dentro do Ministério do Planejamento houve uma organização criminosa que atuou ao longo de 5 anos e desviando valores na ordem de R$ 100 milhões. A estabilidade e a relação entre os envolvidos demonstra que tinha os envolvidos demonstra que tinha os elementos de uma organização criminosa apontando para a prática de vários crimes contra o patrimônio público", afirmou o procurador Mendonça.

Mandados cumpridos
Um mandado de condução coercitiva foi para o jornalista Leonardo Attuch, que administra o blog 'Brasil 247'. Ele já havia aparecido nas investigações da Lava Jato como suspeito de ter recebido dinheiro por serviços não executados.

Há ainda um mandado de prisão preventiva para o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, que, condenado na Lava Jato, está preso desde 2015.

"Ele tinha uma função exponencial no esquema porque ele era responsável por coordenar o recebimento no Partido dos Trabalhadores. As evidências apontam que ele tinha conhecimento de tudo e que era ele que indicava as empresas que deveriam receber os valores e por meio de quais empresas ele deveria receber. Então ele tem uma participação ativa no esquema, tanto que foi decretada a prisão do senhor João Vaccari também", disse o procurador.

Outro ex-tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, também tem mandado de prisão. Ele é marido da ex-ministra do Desenvolvimento Social no governo Dilma, Tereza Campelo.

Valter Correia, secretário de Gestão do prefeito Fernando Haddad, em São Paulo, também foi preso.

Além das prisões relacionadas ao PT, policiais federais foram à sede do partido no centro de São Paulo. Os presos e o material apreendido serão encaminhados à sede da Polícia Federal, na capital paulista.

A PF informou que o objetivo da operação, batizada de Custo Brasil, é apurar o pagamento de propina referente a contratos de prestação de serviços de informática no valor de R$ 100 milhões, entre os anos de 2010 e 2015, a pessoas ligadas a funcionários e agentes públicos ligados ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG).

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