domingo, 31 de janeiro de 2016

Adepta do poliamor ensina como introduzir terceira pessoa na relação

Ela já esteve envolvida em três relacionamentos paralelos e diz que não faz suíngue. 

RIO - Como apresentar seu namorado para o seu marido sem magoá-los? Quando seu cônjuge sai com alguém novo, tudo bem sentir ciúmes? Se minha namorada de outra cidade fica na minha casa, pode dormir comigo e a minha mulher? Ou, simplesmente: posso amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo? São perguntas inconvenientes para uma união monogâmica, mas cotidianas para quem é (ou quer ser) do poliamor. Sharlenn Carvalho, 32 anos, praticante e militante desse modelo de relações múltiplas, simultâneas e consensuais, especializou-se em respondê-las.

Sharlenn calcula que dedica entre três e quatro horas diárias às dúvidas de poliamoristas e simpatizantes, a distância e ao vivo, com amigos e recém-conhecidos — entre estes, vários que a viram em “Amores livres", série sobre novas formas de relacionamento, que GNT exibiu ano passado. Coordenadora no grupo Pratique Poliamor RJ e responsável pelo site 3P (“Philosofia, Política e Poliamor"), virou uma espécie de consultora, atividade informal que pensa em tornar remunerada.

Em 2015, Sharlenn esteve envolvida em três relacionamentos paralelos, cada um deles em um estágio diferente. Depois de um ano de namoro, ficou noiva do designer Will Vaz, com quem divide o mesmo teto e deve se casar em 2016. Ao mesmo tempo, manteve um namoro com um rapaz de Brasília que prefere não se expor. Por fim, em outubro passado, viu terminar seu romance “poli” mais antigo, de quatro anos, com o sociólogo Rafael Machado — colega de colégio de Will e que inclusive o apresentou a Sharlenn.— O tema explodiu em 2015, a procura cresceu muito — diz Sharlenn, enquanto toma uma água em um bar do Bairro de Fátima, onde mora. — Fico feliz de ver as pessoas se entendendo, se sentindo mais plenas. Para quem está se descobrindo “poli”, histórias de quem encarou isso podem servir de exemplo.

— Esta é a configuração atual da minha vida afetiva. Mas tenho toda a liberdade de conhecer e ficar com outras pessoas — diz Sharlenn, numa boa, como se estivesse explicando que “Sha” é a sílaba tônica do seu nome.

As coisas, claro, nem sempre foram tão simples. Sharlenn é de Petrópolis, onde conheceu seu primeiro marido. Casaram-se cedo e tiveram uma filha, hoje com 8 anos. O tempo passou, os dois foram se distanciando e o marido teria sugerido, “para salvar a relação”, que eles tentassem troca de casal, suingue, relacionamento aberto (no esquema “não pergunto e não conto”). Ela não topou:

— Nada contra quem faz, mas eu me sentiria objetificada. É diferente do poliamor, que pressupõe um envolvimento, não é apenas sexual.

Já formada em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Sharlenn se deu conta de que estava apaixonada por outro. Era o sociólogo Rafael, que ela conhecera na internet enquanto pesquisava sobre o que ainda se conhecia pela expressão americana “poliamory”, citado em textos pioneiros da sexóloga Regina Navarro Lins.


— A sociedade ainda é muito hipócrita. Eu me sentia errada, um ET, cheguei a pensar que era doente. Cansei de ouvir que “mulher que faz isso é vadia”, “não se dá ao respeito”. — diz Sharlenn. — Existe uma ditadura da monogamia, que a gente chama de “polifobia”. É difícil encarar isso de forma natural, pública, aberta. Muitos precisam de ajuda nesse trajeto.Em vez de levar o caso adiante, decidiu abrir a história com o marido. Segundo Sharlenn, a princípio ele aceitou a experiência, mas depois se arrependeu e hoje alega traição. A Justiça acabou dando a guarda da filha para ele; os dois moram em Petrópolis e Sharlenn vê a menina periodicamente.

Rafael, ex de Sharlenn que continuou um grande amigo, reconhece que ela tem aptidão para imaginar o que os outros estão pensando:

— Ela entende o que se passa tanto na cabeça de quem está a sua frente quanto na dos parceiros sobre quem a pessoa está falando.

Por enquanto, as consultas ainda são gratuitas, mas Sharlenn está pensando em profissionalizar a coisa este ano:

— É uma atividade que considero fundamental, não quero deixar de fazer. Mas faço por amor. Se pudesse me sustentar como “consultora de poliamor”, seria o ideal.

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