quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Vídeo do MPF mostra deslocamento de rejeitos em barragem da Samarco

Imagens foram exibidas em audiência pública da Comissão das Barragens. Durante fiscalização, MPF flagrou movimentação de rejeitos em Fundão.
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Uma procuradora do Ministério Público Federal (MPF), que fazia inspeções na mina da Samarco, em Mariana, registrou em vídeo o momento do deslocamento de rejeitos de minério dentro da barragem de Fundão, da Samarco. (Veja o vídeo acima) O incidente aconteceu na tarde desta quarta-feira (27). Dois vídeos do episódio, um gravado em solo e outro durante um sobrevoo de helicóptero, foram exibidos nesta quinta-feira (28), durante uma audiência pública com representantes da empresa, atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão e autoridades na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

“No momento em que ela [procuradora] estava na ombreira direita da barragem, chegou uma massa de rejeitos oriunda de um processo de erosão no dique de Sela [estrutura que separa as barragen de Germano, ainda intacta, e a de Fundão]. A quantidade de rejeitos é absolutamente impressionante, e a empresa Samarco não tem nenhuma possibilidade de garantir a segurança das populações que se encontram na bacia do Rio Doce”, afirmou o procurador Edmundo Antônio Dias, doMinistério Público Federal, durante a audiência.

Nesta quarta-feira (27), houve um deslocamento de 'massa residual', ou rejeito de minério, na Barragem de Fundão. Mais de um milhão de metros cúbicos de rejeitos de minério se movimentaram, segundo o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A mineradora não confirma o volume de material que se deslocou e disse que ainda está fazendo o levantamento. Cerca de 450 funcionários, que trabalhavam em obras, foram retirados do complexo de barragens.

Lama vazou dentro de área de barragens da Samarco em Mariana.


Segundo o superintendente do Ibama, durante audiência (veja acima a reportagem do MGTV 1ª Edição), as medidas adotadas para conter a lama são provisórias e insuficientes. “As medidas que estão sendo tomadas, como a construção de diques abaixo da barragem de Santarém, elas são importantes, elas são necessárias, mas elas são provisórias, elas não são suficientes para dar conta de 100% dos rejeitos que permanecem em Santarém e Fundão", disse.

Com o episódio desta quarta-feira, o Rio Doce continua a ser poluído. “A grande massa que se deslocou ela permaneceu ou dentro ou acima da barragem de Santarém. E o que está acontecendo é que as águas das chuvas e das drenagens locais elas estão levando de maneira paulatina, mas não com corrimento dramático de sedimentos para o rio. Existe uma contínua fonte de poluição, mas ela é crônica, ela não é crítica", disse Belisário.

O procurador Edmundo Antônio Dias afirmou que a reparação dos danos socioambientais apresenta dimensões que extrapolam as de ordem ambiental e econômica. “Necessidade de ser plena a reparação do desastre da barragem de Fundão, mediante medidas reparatórias inclusive aos danos culturais e demais danos de natureza imaterial, como aqueles causados aos povos indígenas e demais povos tradicionais na Bacia do rio Doce, como os índios Krenak", disse.

Representantes da Samarco participaram da audiência, convocada pela Comissão Extraordinária das Barragens, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O engenheiro José Bernardo Vasconcelos disse ter presenciado, ao lado da procuradora que gravou o vídeo, o momento em que uma massa de rejeito desce por Fundão.

"O deslizamento de ontem foi um desplacamento de rejeito que se encontrava remanescente logo a jusante do dique da Sela e do dique da Tulipa. Por coincidência, eu me encontrava lá no local, no horário da visita, acompanhando a representante do Ministério Público Federal, doutora Valquíria, e pude presenciar o evento. Esse movimento de massa, ele se deslocou de um ponto do reservatório, desceu e essa massa ficou paralisada logo próximo do início do reservatório de Santarém. Posteriormente, no início da tarde, fizemos um voo no helicóptero da Samarco e avaliamos que esse material, realmente, se depositou na porção do fundo da barragem de Santarém", disse o engenheiro José Bernardo Vasconcelos.

O gerente-geral de Meio Ambiente e Licenciamento Samarco, Marcos Perdigão, garantiu que os níveis de segurança das barragens estão mantidos, apesar do recente deslocamento de rejeitos. “Não houve material descido após Santarém, ou seja, esse material residual ficou paralisado entre Fundão e Santarém, ou seja, dentro da área da Samarco. Não houve nenhum dano às estruturas de Germano e Santarém. Permanecem estáveis, com os níveis de segurança”, disse

Ainda segundo Vasconcelos, a chuva estaria atrasando obras iniciadas após o rompimendo de Fundão. “Nós chegamos num estágio de 85% da barragem de Santarém concluída. E, por motivo de fortes chuvas que nós estamos enfrentando na região nos últimos 10, 12 dias, chuvas intensas, o material se tornou muito saturado. [...] Em relação à Selinha, as obras foram concluídas, implantamos sete bermas de equilíbrio a jusante da estrutura. A obra está finalizada”, disse.

Moradores de localidades atingidas também estiveram presentes e cobraram a garantia de direitos. Uma mulher que perdeu a casa na tragédia afirmou que as ações de reparação têm sido lentas.

“O que nós recebemos foi uma casa alugada. O processo está sendo muito lento até mesmo porque, quando a barragem se rompeu, a gente teve, acho que no máximo, dez minutos para sair de casa. E agora precisa de uma eternidade para resolver a nossa situação. [...]. Nossa casa, a gente ter a nossa vida de volta. É só isso que a gente quer, mais nada. Ninguém quer além do que tinha”, disse Mônica Rodrigues.
A janela de uma casa de Bento Rodrigues, no interior de Minas Gerais, após o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco.

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