quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Avô relembra últimos dias com Ricardinho: 'Agora sinto mais falta'

Nicolau dos Santos era chamado de pai por surfista, que morreu há 1 ano. Crime ocorreu quando eles consertavam cano. 'Ele queria aprender', conta.
Nicolau, avô de Ricardinho, no orquidário que mantém em casa (Foto: Luciana Tecídio)Nicolau, avô de Ricardinho, no orquidário que mantém em casa: passatempo conta dor.

Esta quarta-feira (20), não será um dia comum para os moradores da paradisíaca praia da Guarda do Embaú, em Palhoça, Grande Florianópolis. Neste dia, há um ano, morreu o surfista Ricardo dos Santos, o Ricardinho. Nascido e criado na Guarda, Ricardinho morreu após levar dois tiros de um policial militar em frente à casa da família na praia catarinense.

Durante a discussão com Luis Brentano, que foi expulso da Polícia Militar, Ricardinho estava acompanhado do avô, Nicolau dos Santos, hoje com 74 anos. Filho de pais separados, o surfista foi criado por Nicolau, a quem ele chamava de pai, e por Dalcema dos Santos, de 72 anos.

O avô conta que a dor da morte do neto foi grande na época do crime, mas recentemente ela tem se agravado. “No início foi doído. Agora sinto mais falta dele, pois era quando ele voltava das viagens pelo mundo. Ele era campeão mundial, era um craque, e era nessa época do ano que ele voltava para cá”.

'Ondas' no cobertor
Apesar de o crime ter ocorrido no portão da casa onde ele morava com o neto, Nicolau não mudou de endereço. Continua vivendo ali com a companheira, onde passou os melhores momentos ao lado do neto.

“Ele começou a surfar menininho. Dormia com a gente na cama e lembro que ele dobrava o cobertor em formato de onda e fazia com a mãozinha o movimento da prancha. Com a voz, imitava o som dela batendo na água”, lembra o avô, dobrando a coberta da cama com vista para as ondas da Guarda do Embaú.
Ricardo dos Santos, o Ricardinho, morreu depois de discussão com o policial (Foto: GloboNews)Ricardo dos Santos, o Ricardinho, morreu depois de discussão com o policial

'Queria aprender a consertar'
Ao lado das lembranças de Ricardinho criança, Nicolau ressalta que a mais marcante foi a do último dia de vida do surfista. No dia 19 de janeiro de 2015, após voltar de mais de uma de suas muitas viagens de surfe pelo mundo, o jovem quis que o avô o ensinasse a consertar um cano da casa que dava para a rua.

Nicolau é um a faz-tudo. Com suas próprias mãos ergueu as primeiras construções da então intocada Guarda do Embaú. “A lembrança mais estimada que tenho dele foi quando ele se manifestou para arrumar o cano da água. Ele queria aprender e me disse: 'Pai, você quando ficar velhinho não vai poder mais consertar, quero aprender'. Aí foi a desgraça”, lamenta Nicolau, lembrando do dia que o ex-PM atingiu o neto com tiros.

Orquídeas
Os cuidados com o orquidário que mantém na confortável casa com costas para a Mata Atlântica e a confecção de cestas trançadas com fios de luz descartados são um passatempo valioso para Nicolau esquecer momentaneamente de sua ferida.

No entanto, é vendo a dor dos outros que ele tenta superar a sua. “Estamos aqui para levar a vida para frente e ele está lá nas mãos de Deus. Ele está morto, o que vamos fazer mais? Tem certas mães e certos pais que perdem o filho de cada jeito! Ganho força escutando as reportagens da TV. Vejo as notícias e comparo a minha dor com a dos outros e a gente vai levando. É uma dor que a gente não esquece mais. É bem doída. Às vezes as notícias são ruins, mas é bom escutar para ver o que está acontecendo.”

Sem data para júri
Um ano após o assassinato, ainda não há data para o julgamento final do réu. Conforme a defesa, na última quarta-feira (13) foi feito o pedido de recurso para retirar as qualificadoras do crime, a ser julgado pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ). Brentano é acusado de homicídio triplamente qualificado e por embriaguez ao volante.

Ao PM que atirou em Ricardinho, Nicolau deseja que seja feita a justiça. “Não quero que ele morra. Quero que ele fique preso o tempo que a Justiça decidir. No dia de seu julgamento estarei lá, com a camisa do meu neto.”

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