segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

"Olelê, olalá": samba brasileiro embala Barça, mas clube desconhece origem

Sucesso nos estádios do Brasil há anos, samba-enredo do Salgueiro campeão em 1971 é hino da torcida do time espanhol. Compositor se orgulha do feito: "Fantástico".

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O Barcelona de hoje ganha nota 10 no quesito futebol. Impiedoso com os adversários, o time de Messi, Neymar e Suárez papa todos os títulos que vê pela frente. É como se jogasse por música. Um samba, por que não? Um misto de alegria e organização na ponta dos pés. Um bom motivo para ligar o Barça ao Brasil, certo? Já não bastasse a lista de craques brasileiros que fizeram história por lá: Evaristo, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo... Além de Neymar, que está fazendo a sua. Mas não é só dentro de campo que o samba faz parte do dia a dia dos torcedores da equipe catalã. A versão de um samba muito conhecido no Brasil faz sucesso nas arquibancadas do Camp Nou há anos. E o mais curioso: os catalães nem fazem ideia disso, acham que estão cantando uma música qualquer, inventada pela torcida culé.
Provavelmente, você já cantou em algum estádio o verso "Olelê, olálá, fulano vem aí, e o bicho vai pegar" ao torcer para o seu time e exaltar o artilheiro da equipe. Saiba que a musiquinha trata-se de uma versão do refrão do samba campeão do carnaval carioca de 1971 pelo escola Acadêmicos do Salgueiro, feito pelo cantor e compositor Zuzuca. O enredo "Festa para um rei negro", dos lendários carnavalescos Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues, Joãozinho Trinta e Maria Augusta, contava a história de uma visita de nobres africanos a Maurício de Nassau, no Recife. Na apuração, o samba ganhou notas 10 em letra e melodia, que ajudaram na conquista com 128 pontos, 12 a mais que a vice Portela. Campeão em 1960, 1963, 1965, 1969, 1971, 1974, 1975, 1993 e 2009, o Salgueiro será a segunda escola a desfilar nesta segunda-feira na Marquês de Sapucaí, com o enredo "Ópera dos Malandros". 

Torcida do Barcelona adaptou samba brasileiro para cantar no estádio )

A letra original do samba de 1971 diz "Olelê, olalá, pega no ganzê, pega no ganzá". O estribilho fez sucesso na avenida, rapidamente caiu na boca do povo e não demorou a invadir os estádios com versões criadas pelas torcidas. Não só das brasileiras. Na Espanha, foi adotada pelos fãs do Barcelona, que criaram a sua versão, em catalão - o idioma próprio da região: "Olelê, olalá, ser de Barça es el millor que hi ha" (significa que torcer para o Barça é a melhor coisa que existe). Mas Zuzuca está longe de ter o mérito reconhecido por quem a canta longe do seu país.

Mais de 10 torcedores na porta do Camp Nou em dia de jogo do Barça. Nenhum deles sabia que o clássico "Olelê, olalá", cantado por eles para empurrar o Barça, veio do Brasil. E nem a própria diretoria tem esse conhecimento. A reportagem conversou com alguns membros do clube, que também se mostraram surpresos com a informação.

- Essa canção vem do Brasil? É mesmo? Eu podia jurar que era catalã - disse o estudante Pablo Nuñez, fanático torcedor do Barcelona, resumindo o sentimento de surpresa de praticamente toda a torcida.

A falta de crédito no outro lado do Atlântico parece não incomodar Zuzuca, um dos maiores compositores de samba-enredo da história do carnaval carioca:

- A gente fica orgulhoso. É uma resposta para a gente mesmo, satisfação. Foi algo que agradou ao público, ao povo. Isso é lindo, maravilhoso, fantástico. É a vida da gente. Porque nós fazemos samba para isso, para que ele atinja o máximo que puder - afirmou Zuzuca.
Zuzuca do Salgueiro com diversos troféus que conquistou no samba

A história do "pega no ganzê"

Sambista daqueles mais simpáticos, Zuzuca recebeu a reportagem na casa onde vive em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que comprou com o suor de anos de trabalho e sucesso com a caneta e o microfone. Aos 77 anos, é aposentado, viúvo e mora sozinho - tem um filho e três netos. Afastado do Salgueiro, continua compondo e às vezes grava CDs independentes, mesmo com as dificuldades do mercado. 

O cantor e compositor lembra com carinho do carnaval de antigamente, quando, segundo ele, tudo era feito com muito mais amor e coração. O de 1971 foi mais do que especial para ele, com o Salgueiro conquistando o quinto título da história da escola. Ao cantar o sucesso no sofá de casa, não segurou a emoção e deixou escapar algumas lágrimas. O refrão, de fácil assimilação, pegou rapidamente e foi ingrediente fundamental para o título. E teve até palavra inventada: "ganzê" foi uma criação do salgueirense, para rimar mais fácil.

- O ganzá é aquele chocalho africano. E como não tinha outra forma de rimar, veio ganzê. Aí casou. E ficou (risos) - disse.

- O tema pedia uma música alegre, e a coisa nasceu. Pintou de repente e eu segurei. Coisa de Deus. O compositor é abençoado por Deus. Ele põe para fora no coração e na alma. Deu no que deu - completou.

"Festa para um rei negro" de fato teve muita importância na história do samba. Para o professor Luiz Antonio Simas, autor do livro "Sambas de Enredo: História e Arte" ao lado de Alberto Mussa, essa música foi "o primeiro fenômeno em larga escala" por ter sido sucesso tanto na avenida quanto nos salões. Além disso, criou polêmica com a inovação estrutural.

- O curioso é que esse samba gerou muitas críticas dos mais tradicionalistas, que achavam que ele quebrava a estrutura porque vinha com repetição de refrão. E ele criava um neologismo nessa ideia de "pega no ganzê". Mas esse samba ganhou em popularidade o que não ganhava na crítica. Ele se tornava cada mais popular, sobretudo pelo refrão, enquanto a crítica mais tradicional o esculhambava. Esse samba sobreviveu à avenida e passou a ser tocado em tudo quanto é lugar. Fez muito sucesso nos salões. É provável que tenha sido o primeiro fenômeno em larga escala. Aí, por ter se tornado tão popular, depois chegou ao futebol. Foi um sucesso estrondoso - disse Simas.
Zuzuca, na varanda de casa, com o "Boi da cara preta", outro sucesso que compôs.

Cobrança pelos direitos autorais

O lado negativo de seu samba, para Zuzuca, é a falta de reconhecimento financeiro. Representado pela UBC (União Brasileira de Compositores), ele cobra direitos autorais de suas músicas, entre elas "Festa para um rei negro", no Brasil e principalmente na Espanha. No geral, as principais reclamações de Zuzuca são em relação a casas de shows e outros eventos públicos que reproduzem suas músicas sem que ele ganhe nada em troca.


Um canal de televisão espanhol, por exemplo, chegou a produzir um vídeo com a versão do samba, cantada pela torcida do Barcelona - está disponível no Youtube -, mas Zuzuca não recebeu qualquer quantia. Por isso, está reclamando junto à SGAE (Sociedad General de Autores y Editores).

Em contato com o escritório brasileiro da SGAE, que fica na Zona Sul do Rio de Janeiro, sobre o vídeo em questão. A resposta foi que "o Youtube só paga direitos autorais por vídeos que tem publicidade e que o usuário assiste, o que não é o caso deste". Sobre os outros casos, a SGAE disse estar analisando e procurando mais informações.

- Tem reconhecimento do público. O público não é ingrato. A parte financeira é o problema. Talvez eu consiga apanhar meio quarto do que eu deveria. Só ganha um pouquinho mais quando chega o carnaval - lamentou o compositor.

Mas as alegrias são maioria. E Zuzuca do Salgueiro faz questão de dizer que é muito grato ao samba, que deu a ele aquilo que conquistou de mais importante na vida.

Confira abaixo a letra original de "Festa para um rei negro", samba campeão pelo Salgueiro em 1971 no carnaval do Rio de Janeiro:

Olêlê, ôlálá,
Pega no ganzê BIS
Pega no ganzá!

Nos anais da nossa História,
Vamos encontrar
Personagens de outrora
Que iremos recordar

Sua vida, sua glória,
Seu passado imortal,
Que beleza
A nobreza do tempo colonial.

Olêlê, ôlálá,
Pega no ganzê BIS
Pega no ganzá!

Hoje tem festa na aldeia,
Quem quiser pode chegar,
Tem reisado a noite inteira
E fogueira pra queimar.
Nosso rei veio de longe
Pra poder nos visitar,
Que beleza
A nobreza que visita o gongá.

Olêlê, ôlálá,
Pega no ganzê BIS
Pega no ganzá!

Senhora dona-de-casa,
Traz seu filho pra cantar
Para o rei que vem de longe,
Pra poder nos visitar.
Esta noite ninguém chora,
E ninguém pode chorar,
Que beleza
A nobreza que visita o gongá.

Olêlê, ôlálá,
Pega no ganzê BIS
Pega no ganzá!

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